Veja SP – 1 de agosto de 2001
Iê-Iê-Iê Cover
Beatles 4 ever lota há seis
meses o Crowne Plaza imitando seus ídolos
Quem esses caras pensam que são?
Fisicamente, lembram muito pouco John, Paul, George e Ringo. Bigodes
pintados e perucas tornam a cena ainda mais artificiosa. Além
disso, o baixista é destro – Paul McCartney, o mundo sabe,
é canhoto. O público, porém, se diverte a valer.
Tem sido assim desde o começo do ano, quando a Beatles 4
ever iniciou suas exibições no Teatro Crowne Plaza.
Prevista para durar um mês, a temporada vem sendo prorrogada
em razão do sucesso. Ela já dura um semestre, o que
é uma façanha para qualquer tipo de show. Estreou
em janeiro, às quintas, migrou para sábados e domingos
dois meses depois e a partir desta semana ocupa as noites de Sexta,
com casa lotada (veja detalhes em shows na pag. 82). São
153 lugares, mas sempre tem gente que assiste ao espetáculo
em pé. A maior parte da platéia viveu na pele a beatlemania,
entre casais de trintões e quarentões, porém
aparecem alguns adolescentes curiosos para descobrir por que os
pais veneram o quarteto de Liverpool.
Neste quesito, a banda não nega fogo.
Enquanto outros covers – existem pelo menos mais oito na ativa em
São Paulo – privilegiam a musicalidade, a Beatles 4 ever
dedica igual atenção ao aspecto visual. Isto inclue
os equipamentos, todos fabricados nos anos 60. O interprete de George
Harrison, Marcus Rampazzo, 47 anos, é dono de uma loja de
instrumentos antigos na Mooca. Graças a seus conhecimentos
na área, ele pode dar-se ao luxo de tocar uma Rickenbacker
360 idêntica à que o guitarrista dos Beatles usa no
filme Os reis do Iê-Iê-Iê (1964).
A de Harrison é a número 2 de uma série limitada
de 25 guitarras. Marcus tem a número 9, que, segundo seus
amigos, foi comprada oito anos atrás nos Estados Unidos por
mais de 10.000 dólares.
A proposta de emular os ídolos
nos mínimos detalhes norteia o grupo desde seu surgimento,
em 1980. O conjunto manteve-se na ativa até meados da década
passada, quando o guitarrista Felipe Marshall, sósia de John
Lennon, se mudou para Londres. Único remanescente da formação
original, Marcus passou dois anos preparando um novo Lennon e reativou
a banda no fim de 1999. "Nunca havia tocado num grupo musical
antes, mas não poderia perder esta chance", diz o substituto
Nelson Artuzo, 46 anos, um antigo fã que aceitou o desafio.
A escalação se completa com Ricardo Felício,
34 anos, na bateria, e Rene Zajaczkowski, 33, no baixo. Ricardo
começou na Beatles 4 ever, como roadie (espécie de
assistente de palco) e há 15 anos foi promovido a Ringo Starr.
O atual Paul McCartney, Rene, é especialista em imitar todos
os integrantes do quarteto inglês. "Como fiz parte de
vários covers dos Beatles, já tive oportunidade de
interpretar os quatro", orgulha-se.
Fora
do palco, Rene trabalha como Analista de Sistemas em um banco. Nelson
e Ricardo são sócios em uma tinturaria. Além
da loja de instrumentos, Marcus tem um estúdio e uma escola
de música. Durante as apresentações existe
uma espécie de acordo tácito: eles se fantasiam de
Beatles, e a plateia finge acreditar. Apesar de ingênua, a
coisa funciona. O segredo, claro, está na música.
Tocadas nota por nota tal qual foram concebidas, canções
como Ticket to Ride e Penny Lane evidenciam o que
havia de tão especial em John, Paul, George e Ringo os verdadeiros,
obviamente.
RODRIGO PEREIRA
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